Um fragmento de história: caminhos da Loucura

Antiguidade

 

– A Loucura era causada por forças sobrenaturais (deuses irados, maus espíritos e demônios) que assumiam o controle do homem e mandavam em seus comportamentos. A utilização de encantamentos, preces, poções e até mesmo sofrimentos físicos (apedrejamento e açoitamento) eram comuns.

 

 

 

 

Eras grega e romana (século IX a.C. – 476 d.C.)

 

– Influenciado pelo pensamento filosófico de Heráclito e, principalmente, de Empédocles, Hipócrates (460 – 377 a.C.), conhecido como o “pai da medicina moderna” funda a Teoria Humoral, que considera o corpo humano como sendo governado por quatro humores (líquidos) no corpo. As doenças passam a ser tidas como mera consequência de disfunções nesses níveis humorais. A Loucura, como sendo uma doença do cérebro (órgão central da Loucura), se daria quando esse se torna mais úmido do que lhe é natural. O cérebro assim se movimentaria e pertubações sensoriais (ilusões, alucinações) acabariam sendo sentidas. Segundo a teoria hipococrática, as ilusões e alucinações seriam meros sintomas da verdadeira doença, a Loucura. A terapia consistia da diluição, ou expulsão, dessas substâncias para seus devidos lugares ou mesmo para fora do organismo (katársis) combinada com normas de conduta a serem adotadas (regime alimentar, banhos de imersão, sangrias, música e viagens). Com isso, Hipócrates inaugura a teoria organicista da loucura, que terá influências marcantes na medicina dos séc. XVIII e XIX.

 

Um ponto na Literatura

 

– Na poesia de Homero e de Hesíodo a Loucura é tida como o estado de transitório descontrole mental produzido pelo capricho de alguma divindade ou um seu subordinado. Mudado o humor dos deuses, a loucura e seus efeitos tenderiam a desaparecer normalmente. Ela (a loucura) não passa de um mero “acidente de percurso”. Modelo mítico-teológico.

 

– Os textos trágicos retratam a Loucura já não mais como um arroubo passageiro de causa divina, mas sim como uma condição crônica vinculada a traços de caráter imanentes ao homem.

 

 

 

 

Idade Média (500 – 1500 d.C.)

 

– Com o surgimento de livros como o Martelo das Bruxas (Malleus Maleficarum, 1484) e o Compendio (1576), a Loucura passa a ser caracterizada na Idade Média novamente como obra do demônio, seja por iniciativa própria ou por pedido de alguma Bruxa. A Teoria de Hipócrates é relegada ao esquecimento e a figura do louco passa a representar uma verdadeira ameaça social. O tratamento principal para a Loucura era o exorcismo, mas muitos foram também acorrentados e queimados nas fogueiras acusados de bruxaria.

 

“Nau dos Loucos”

Em “A História da Loucura” Foucault traz a ideia da Stultifera Navis (Nau dos Loucos), um barco estranho que flutua sobre vários rios levando os loucos em seu interior. Além de trazer um sentido simbólico a “Nau dos Loucos” faz referência a uma prática que realmente existiu durante o Renascimento. Naquela época, as cidades, querendo se ver livres da figura do louco, os embarcavam em navios e os faziam percorrer os rios do norte e leste europeus, principalmente. Em cada localidade que o navio aportava os loucos eram novamente embarcados em um ciclo eterno.

 

Século XVI

 

– A Loucura sai do âmbito da possessão demoníaca e é reconhecida como doença. A partir disso, é criado em Londres o hospital Saint Mary of Bethlehem (1547), um lugar dedicado ao cuidado de “pessoas perturbadas”. Assim como os asilos que surgiram depois o Saint Mary não passava de uma prisão. Os “cuidados” dedicados aos pacientes se reduziam ao confinamento e ao acorrentamento às paredes que os impediam de se deitar para dormir.

 

Século XVII

 

– Em 1656, na França, é fundado o Hospital Geral, dando início ao que Foucault denominaria mais tarde como a “Grande Internação”. As casas e hospitais passam a ser o destino de todos os considerados indesejáveis da cidade de Paris (criminosos, vagabundos, mendigos e os loucos). O hospital passa a exercer uma função social e política.

 

Final do século XVIII

– A Revolução Francesa contribui com os direitos humanos, sociais e políticos. Os loucos são separados das outras pessoas que foram internadas durante a Grande Internação. O hospital passa a ser uma instituição de tratamento médico de alienados, desacorrentados, porém ainda institucionalizados. O enclausuramento é justificado por um imperativo terapêutico. É nesse momento que surge o nome de Philippe Pinel, considerado o pai da Psiquiatria. Em 1793, Pinel passa a dirigir o Hospital de Bicêtre e Salpêtrière”,  local onde Pinel e a psiquiatria do século XIX encontram os loucos, e onde eles permanecerão.

 

Início do século XIX

– É introduzido o conceito de alienação mental e o trabalho do alienista atra´ves da elaboração do Tratado Médico Filosófico sobre a Alienação Mental ou Traité (1809) de Pinel. É nesse momento em que os grilhões dos loucos são retirados e o espaço hospitalar é ordenado. Como doença, a alienação mental (Loucura) passa a ter pretensão de cura. Seu tratamento tem na ordem o maior recurso – isolamento do mundo externo; manutenção do controle rigoroso das ocupações e do emprego do tempo; a hierarquia; etc.

 

Segunda metade do século XIX e início do século XX

– Embora a maioria dos psiquiatras passe a procurar uma causa orgânica para as doenças psíquicas, estudos continuam a ser empreendidos na contramão dessa ideia. Dentre as mais famosas figuras da Europa do século XIX e XX destaca-se Sigmund Freud (1856-1939), que introduz explicações psicológicas para a doença mental (Inconsciente). Surge com Freud a Psicanálise e a possibilidade da cura pela palavra. Outros tipos de tratamento também foram empreendidos durante essa época: choque insulínico; intervenções psicocirúrgicas (lobotomia frontal); eletroconvulsoterapia e os psicofármacos. Surge nos Estados Unidos o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).

 

 

Século XX

– A virada do século é responsável por uma apressada mudança nos tratamentos da Loucura. O interesse teórico e clínico desloca-se para a subjetividade do doente. A doença mental passa a ser encarada como outro jeito de ser, não mais como o contrário de normalidade.

– No ano de 1971, em Trieste, na Itália, Franco Basaglia põe fim a instituição psiquiátrica tradicional ao fechar os manicômios. Essa experiência demonstra que é possível a constituição de novas formas de sociabilidade e de subjetividade para aqueles que necessitam da assistência psiquiátrica.

– Anos mais tarde, mais especificamente em 13 de maio de 1978, é instituída a Lei 180, de autoria de Basaglia que não só proíbe a recuperação dos velhos manicômios e a construção de novos, como também reorganiza os recursos para a rede de cuidados psiquiátricos, restitui a cidadania e os direitos sociais aos doentes e garante o direito ao tratamento psiquiátrico qualificado.

– 1986: Nessa época, as denúncias das condições precárias dos manicômios já tinham ganho relevância no Brasil. Surge a primeira experiência de CAPS do Brasil, denominado Professor Luís da Rocha Cerqueira, na cidade de São Paulo.

– 1987: Fundamentados no exemplo de Basaglia, profissionais da saúde que contribuíram na constituição do Sistema Único de Saúde (SUS) criam o Movimento da Luta Antimanicomial no Brasil, seu lema: “Por uma sociedade sem manicômios”. O 18 de maio foi definido como o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, data comemorada até os dias de hoje.

– 2001: Aprovação da Lei 10.216, também conhecida como Lei Paulo Delgado. Esta lei preconiza a reestruturação da atenção em saúde mental, defende os direitos das pessoas que necessitam de tratamento e propõe a criação de serviços que ofereçam este tratamento sem que isto signifique exclusão da vida social ou perda dos direitos e do lugar de cidadão.

 

Por: Luiz Felipe Bolis (Repórter)/ Alessandra Clementino (repórter colaboradora)/ Betânia Diniz (repórter colaboradora) – Iara Alves (editora)