Mirando novas realidades

Em visita ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), somos recebidos por uma mulher que, sentada à varanda, nos aponta a porta: “Não trabalho aqui. Sou usuária”. Simples, direta, aquela mulher nos presenteou com nosso primeiro chacoalhão do dia. O primeiro de, somos gratos em dizer, muitos que viriam.

Mais à frente conhecemos uma outra usuária que, no auge dos seus 32 anos de idade, apresenta transtorno bipolar e esquizofrenia, a qual chamaremos de Sofia. Um tanto reticente, Sofia nos olha da porta com grandes e curiosos olhos. Franzina e com os ombros encolhidos, ela se esconde por baixo de um vestido quadriculado e um casaco cor de rosa que lhe cobre as mãos. Sofia nos olha e nós a olhamos. E que bela troca de olhares!

Quem seriam aqueles estranhos tão diferentes? Nós a convidamos para sentar conosco e participar da conversa, mas ela, ainda temerosa, resolve sair de cena. Alguns minutos depois, Sofia volta para a porta e mais uma vez nos olha. A conversa dessa vez flui. Sofia nos conta que sua mãe é natural do estado de Pernambuco e que o pai, falecido há cerca de quatro anos, nasceu no Sertão da Paraíba. A irmã com quem mora também é “dodói” da cabeça, tal como aponta ela, pondo as mãos sob cabelos dourados. Ela havia chegado ao CAPS dois dias antes, em decorrência de um surto, mas logo estaria de volta em casa – como nossa próxima visita veio a confirmar.

Anos atrás, Sofia havia sido classificada para um curso técnico na área de Ciência e Tecnologia, mas por conta de um estado de depressão não o levou adiante. Com coragem e perseverança, a mulher mostra-se pronta para as próximas seleções.

Buscando melhores condições de vida para a sua família, chegou a trabalhar em três estabelecimentos, e de todos estes sofreu “golpes”. Porém, diante destas situações, sem nunca perder o bom humor, respondia: “nem relógio trabalha de graça porque precisa da pilha.” Sofia não gosta de dançar, (mas acompanha a letra de funk da oficina de expressão corporal como ninguém!). O que ela gosta mesmo é de desenhar, pintar e escrever. Questionada a respeito de que tipos de texto gosta de produzir, ela responde, com toda a certeza presente dentro de si, “gosto de escrever aquilo que eu sinto, mesmo que tenha erros de português”.

Neste mesmo dia conversamos também com Alice, a quem demos este nome fictício em virtude da personagem de Lewis Carroll (1832-1898), assim como foi possível estabelecer entre as duas muitas semelhanças, dentre elas o ato de sonhar, de indagar-se a respeito de si e do mundo. Aos 26 anos de idade, sempre com uma pergunta nos lábios, Alice inspira-se nas princesas dos contos de fada e deseja ser como elas, exalando todo o carisma e a beleza delas.

Alice quer uma tiara, deseja se vestir igual a Branca de Neve, a princesa da qual ela mais gosta. Mas também quer ser dançarina, ir para o programa do Raul Gil e se mostrar ao mundo. Princesa ou dançarina, Alice é Alice. Seu modo de ser é muito mais especial e magnífico do que qualquer moça que tenha vestido um sapatinho de cristal ou que tenha estado frente a frente com uma fera assustadora.

Além de Sofia e de Alice, tantos outros usuários contaram as suas histórias de vida e demonstraram os seus sentimentos mais profundos. Todos, acima de tudo, demonstraram uma grande capacidade de realizar atividades simples e complexas e de refletir a respeito das questões que envolvem o mundo contemporâneo, pois tal como afirma Flávio Montenegro, educador físico com mais de vinte anos de experiências no campo, “eles não são incapazes, e sim estão limitados pela sociedade”.

Deste modo, as pessoas com algum tipo de transtorno psicológico  possuem dentro de si um tesouro muito precioso: seus dons, talentos e carismas. No entanto, às vezes são impossibilitados de pôr em prática aquilo que sabem e possuem, quando não, em alguns casos, são impedidos de serem aquilo que desejam.

Diante disto, os serviços de saúde como o CAPS  buscam capacitar os que por eles passam e possibilitar a autopromoção destes para que em qualquer campo em que atuem, possam executar atividades com segurança e força de espírito. “Aqui no CAPS nós trabalhamos sempre na perspectiva de que a coerência não existe nesse sentido de que eles tem de fazer laço social ou responder às nossas demandas”, afirma Inácio Mariz, estagiário de psicologia, e conclui, a partir das experiência que vem tendo no local em que desempenha seu trabalho que “a grande questão é essa: as demandas de participar da sociedade sempre vem de nós, do serviço”.

Em meio a uma complexa rede de cuidados e de atenção aos cidadãos com algum tipo de transtorno psicológico, que representam por volta de 12% da população brasileira, de acordo com estimativas internacionais e do Ministério da Saúde, algo também é deveras essencial e indispensável para todos eles: o apoio familiar. Sem a devida atenção e carinho dentro do espaço em que as pessoas com complicações nas faculdades mentais, muito provavelmente uma desejável evolução no quadro clínico de cada um deles ocorrerá de forma mais lenta.

Por fim, ou melhor, nesta luta que apenas se inicia em prol da reforma antimanicomial , torna-se preciso buscar a garantia do exercício da cidadania e da dignidade dos que durante décadas foram mantidos em confinamento, para que usuários e pacientes com problemas mentais possam alçar novos voos e estabelecer laços mais fortes com a sociedade.

 

Fotos: Mayara Bezerra/ Kermelly Santos

Por: Luiz Felipe Bolis (Repórter)/ Alessandra Clementino (repórter colaboradora)/ Betânia Diniz (repórter colaboradora) – Iara Alves (editora)