A Guerreira do Quarenta

A título de bons exemplos vamos contar a história de Cristina Maurício de Oliveira, 52 anos. Em 2001 um grave acidente mudou radicalmente sua vida, ela que era recicladora, ficou em um delicado estado de saúde devido a um atropelamento. Logo após uma rápida e inesperada recuperação, ela retomou o controle de sua vida. A partir de então decidiu abraçar as lutas das pessoas mais necessitadas, assumindo uma nova identidade: a de “Guerreira do Quarenta”.

O codinome veio graças às boas ações que Cristina pratica em sua comunidade, ajudando como pode na alimentação, saúde, sociabilização, mas, especialmente pela dificuldade com que ela as desenvolve. Ela é uma mulher humilde que divide o pouco que tem e luta sem medir esforço algum pelo lugar onde nasceu, se criou e também onde cria seus filhos, o bairro do Quarenta que fica em Campina Grande – PB.

As ações desenvolvidas pela líder comunitária vão desde o apoio a pacientes com complicações de saúde, em que são providenciados aparatos médicos e acompanhamentos necessários, ao apoio prestado a crianças em estado de vulnerabilidade social no desenvolvimento de atividades que retirem as crianças das ruas.

As barreiras pelo caminho são muitas, a exemplo da falta de recurso, do envolvimento de pessoas da comunidade com as drogas e ainda a desestruturação familiar. Contudo, ela não desanima, apesar de lutar contra a resistência que às vezes parte de dentro de sua própria casa. “Meu esposo não gosta, ele tem raiva desse trabalho que eu faço. Porque eu não tenho hora pra dormir, hora pra comer, eu saio de manhã chego à noite. Ele me chama de Madre Tereza de Calcutá”, pontuou Cristina.

A líder, que já dirigiu um trabalho em uma ONG no bairro com cerca de 30 crianças e jovens e que teve de ser fechada há dois anos por fala de recurso financeiro, hoje tem em andamento o projeto de abrir uma nova organização que desempenhe um trabalho com crianças de rua.

Cristina também pensa futuramente em trabalhar com a recuperação de dependentes químicos. A guerreira do Quarenta se articula também junto a sua comunidade na aquisição de um Programa de Saúde na Família (PSF) no bairro, dentre outras inúmeras melhorias. Sempre pensando coletivamente sua meta é salvar vidas e recuperar jovens.

O trabalho é desafiador, a maior de todas as questões é a falta de recurso financeiro, aliada a falta de apoio e iniciativas públicas, o que ocorre não apenas na comunidade do Quarenta, mas na maioria das comunidades do país. Em contrapartida a tal desafio está à força de uma líder e de toda sua comunidade, no caso do bairro de Cristina alguns moradores ajudam como podem, disponibilizando transporte para locomoção de pacientes, ajudando na contratação de carros de som que mobilizam sobre as necessidades da comunidade, doando alimentos nas campanhas e aos poucos todos vão construindo uma comunidade melhor para os que ali vivem.

A guerreira do bairro, além de recicladora, atualmente é vendedora, aprendeu a ler aos dez anos de idade e após ter deixado os estudos retorna a escola neste ano. Cristina é exemplo de protagonismo cidadão e pensa em um dia chegar a universidade e cursar serviço social para exercer a profissão que tanto admira se tornando responsável por garantir a execução de políticas públicas voltada às comunidades, e assim poder se tornar aquilo que na verdade já é, a defensora de sua comunidade, dos interesses coletivos, do outro. É este o papel de todo líder comunitário.

 

Foto: Joalisson Sebastião

Por: Mirelly Passos (repórter) – Iara Alves (editora)