Um recanto para a saudade

Encontrar a residência onde morava um dos mais ilustres vizinhos no bairro das Três Irmãs, em Campina Grande, não é uma tarefa difícil. Talvez, se procurarmos essa casa nos referindo a Carlos Albuquerque de Melo cause estranheza junto aos moradores da localidade, mas se falarmos em Parafuso, ah… todo mundo dá logo a referência e mostra o caminho que leva ao lugar onde habitou esse homem que foi e continua sendo um dos maiores ícones da música nordestina. Ele, que fundou e integrava o trio de forró ‘Os 3 do Nordeste’, se foi para não mais voltar no dia 3 de outubro de 2016, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e de um infarto, enquanto realizava uma turnê na cidade de Colônia, na Alemanha. Essa partida, no entanto, fez com que o lugar onde por tantos anos ele habitou se transformasse em um recanto de saudades.

Nessa casa, portanto, habita um reduto da cultura paraibana e da música nordestina, além de uma família que busca se unir em todas as situações, sobretudo no momento atual, que os leva a relembrar de Parafuso e a refletir sobre o maior mistério e paradoxo da vida: a morte.

O bairro Três Irmãs conviveu durante muitos anos com um bom vizinho. Os 3 do Nordeste, com um zabumbeiro que esteve presente com o trio desde a sua criação, em 1969. Os fãs, com um profissional cuja marca estava fincada no respeito para com o seu público, na paixão pelo trabalho, no teor romântico das músicas que compunha, no jeito querido de ser. Os amigos, com um amigo que buscava se fazer presente mesmo com a agenda cheia. A família, com um esposo, um pai e um avô especial, tranquilo, que sempre estava de prontidão para dar os melhores conselhos. Alguém que gostava de viver. Um apaixonado pelo primor da sua existência. As pessoas que citam cada um desses adjetivos são: Lisete Véras, 56, Luis Carlos, 33, e Edra Véras, 30, respectivamente esposa, filho e filha de Parafuso.

Tantas palavras descrevem Parafuso, que nasceu em 16 de janeiro de 1940 e após a morte se eternizou por meio das canções que compôs e dos laços que criou. Aos 16 anos, no auge da juventude, ele migrou para o Rio de Janeiro, e na ‘Cidade Maravilhosa’ a vida levou Carlos a percorrer por vários caminhos. Fez testes em um time de futebol, mas o sonho de ser jogador não se concretizou. Trabalhou numa fábrica de pinos, onde recebeu o apelido de Parafuso, devido ao corpo magro que tinha. Serviu à Marinha, geralmente pintando os navios. No entanto, restava a Parafuso encontrar a sua verdadeira vocação: a de zabumbeiro.

Em 1969, ele, juntamente com José Pacheco (Zé Pacheco) e Zé da Ema – que pouco tempo depois deu lugar a Erivan Alves (Zé Cacau) -, criou o Trio Estrela do Norte, que depois intitularam Luar do Sertão e por fim Os 3 do Nordeste, um nome que alcançou fama no Brasil e no mundo e que até os dias de hoje perpetua em uma nova formação do trio.

E todo esse envolvimento com a música não poderia simplesmente partir sem deixar seus frutos. A filha Edra se tornou cantora e o filho Luis Carlos zabumbeiro do trio ‘Os 3 do Nordeste’, prosseguindo com o trabalho do pai no grupo. Com orgulho, Luis exalta a herança deixada pelo seu maior ídolo. “A gente faz questão de dizer: somos um trio. A gente não é uma banda, um conjunto, um grupo, a gente é um trio de forró”, enfatizou.

As lembranças ainda são muito fortes para Lisete, que no dia 21 de abril de 1978 conheceu Parafuso e encontrou no amor e na parceria uma nova maneira de viver. “Eu conheci Parafuso quando ele estava lançando Forró do Poeirão. Eu fui apresentada a ele por uma menina chamada Lucimar, na beira da piscina da AABB de Campina Grande. Eu era muito novinha, tinha 17 anos na época, ainda magrinha. Aí quando ele voltou para fazer a turnê do São João aqui ele me procurou”, lembrou ela carinhosamente de cada detalhe de um relacionamento que durou quase 40 anos.

Eles se casaram em 1981. Três anos depois veio o primeiro filho: Luis Carlos. Em 1987 nasceu a segunda filha: Edra. Lisete conta que a parceria entre os dois ocorria não apenas em casa, mas também no mundo, pois em meio a um show e outro, ela e o marido viajavam com Os 3 do Nordeste. Em 1994, um novo desafio surgia na vida de Lisete Véras: ser produtora do trio de forró. Com a morte de Pacheco, que além de sanfoneiro também ficava encarregado de organizar a agenda da banda, e com os shows para o mês de junho que se aproximavam, ela aceitou o novo ofício. “Foi muito bom eu ter assumido o trio, senão eu acho que a gente não tava no mercado. Hoje tudo o que você vai fazer você tem que fazer por amor, porque o fazer por fazer não dá certo”.

E para a filha, as recordações são de amor e gratidão quando se trata daquele a quem carinhosamente chamava de “paínha”. Mais que pai e filha, eram amigos que conheciam-se profundamente. Um pai que nunca precisou exercer o seu ofício por meio do autoritarismo. Uma filha sempre prestes a escutar os conselhos de seu pai. “Minha filha, o caminho é esse, se você quiser seguir por aqui você vai ver as consequências lá na frente”, lembrou Edra de um dos ensinamentos do pai.

“Eu feliz porque eu sei que ele tá bem. Essa é a lei da vida: os filhos enterram os pais, e não os pais enterram os filhos. Então eu agradeço a Deus pela vida dele, pela vida da minha mãe, pela vida da minha família, e dizer que ele foi e é muito especial”. São essas as palavras que ora saem em meio a um sorriso, vez ou outra também em meio a lágrimas, pois sempre é uma emoção para Edra falar do pai.

As lembranças do zabumbeiro, do pai e do esposo são constantes na mente e no coração de Edra, Luis Carlos, Lisete, de toda a família e também das pessoas a quem ele ajudou ao longo da vida. Falar de Parafuso para eles faz lembrar de alguém que se completava doando um pouco de si para os outros. Sua presença sempre será constante no coração dos admiradores e de uma das famílias mais conhecidas do bairro Três Irmãs de Campina Grande, uma vez que a principal herança que ele os deixou foi o amor pela vida e pelo próximo.

Lisete Véras, à esquerda, ao lado de Edra Véras e Luis CarlosFoto: TV Uepb

Saiba mais sobre Parafuso:

Conheça mais a respeito de Parafuso através de entrevistas, discografias, homenagens ao zabumbeiro e relatos de quem conviveu de perto com Carlos Albuquerque de Melo

Por Luiz Felipe Bolis (repórter) – Eloyna Alves (editora)