Jardim no entorno de canal de esgoto modifica a paisagem e beneficia comunidade em Campina Grande

A relação do homem com a natureza é algo fantástico, mas que nem todos sabem desfrutar. Uma troca que deveria ser saudável, mas que muitas vezes é tóxica. Com os avanços tecnológicos e o crescimento exorbitante da população – que com o passar do tempo agride cada vez mais o meio ambiente – nos deparamos com a realidade de que, em algum momento, os recursos naturais poderão esgotar, sendo poucas as pessoas que reconhecem a natureza como o meio que nos proporciona os bens essenciais para viver.

Maria de Lourdes Pires Cavalcanti, conhecida como Dona Lourdinha, é uma dessas pessoas. Ela, já aposentada, decidiu plantar árvores e diversos outros tipos de plantas no entorno de um canal de esgoto localizado na Rua Maria Souza Ribeiro, onde a mesma reside, no bairro do Catolé, em Campina Grande. Impulsionada por sua consciência ambiental, que já foi herdada de sua mãe, e pelo desejo de viver em um ambiente que preze pela natureza, ela tomou essa iniciativa que beneficia não só a ela, mas a todos que ali residem. “Isso aqui era lixo, de um lado e de outro, e eu transformei em um jardim”, conta orgulhosa.

“Nunca ninguém me chamou para perguntar se eu precisava de uma vassoura, e isso é importante. Mas […] eu faço por prazer e peço que eles não sujem.” Diz ao ser questionada sobre as contribuições de seus vizinhos. Embora eles não contribuam com bens materiais, as pessoas passaram a se conscientizar com a iniciativa e alertas, passando a ajudar e deixando de jogar lixo em locais indevidos.

Houve um tempo em que transeuntes passavam pelo canal querendo arrancar e levar as plantas embora, achando que só porque estão na rua têm o direito de apropriar-se delas. Mal sabendo que o dinheiro usado é do próprio capital financeiro de Dona Lourdinha. “Já pensou, se todos que veem como tá lindo for arrancar e levar, amanhã vai ter o quê?!”, questiona a aposentada.

É ela quem compra as mudas de plantas, os quase trezentos metros de mangueira para regá-las, além de vassouras, carroças e outros materiais necessários para manutenção do espaço. Ainda contrata um funcionário para tirar o excesso de lixo do canal – que já foi por muitas vezes depositado pelos próprios moradores – sobre isso, Dona Lourdinha diz que ao longo do tempo essa realidade tem mudado, os vizinhos têm se conscientizado e colaborado para mantar o ambiente limpo.

Para regar tantas plantas foi necessário à criação de um poço artesanal, todo custeado com dinheiro próprio, exclusivo para essa atividade. Por essa e por outras, Dona Lourdinha já sofreu represálias, gente que chegou até a questionar a sua lucidez justamente por realizar uma atividade que leva seu tempo e dinheiro, o qual (muitos argumentam) poderia está sendo gasto em viagens e luxos. No entanto, para ela, essa é uma atividade terapêutica e que traz benefícios que vão além das efemeridades luxuosas. “Não faço isso para aparecer, faço por bem querer a natureza,” pontuou.

Essa iniciativa social de revitalização contribui com a qualidade do ar e a diminuição do mau cheiro e roedores advindos do canal. Assim, o local se torna mais adequado para os indivíduos que ali convivem. O exemplo pode e deve ser seguido por outros grupos, tendo em vista os seus benefícios em torno de uma cidade mais limpa e confortável para o convívio. “Eu cuido porque eu reconheço que somos nós que precisamos da natureza, não ela da gente”, afirma fervorosa contemplando o jardim que cultivou na própria rua e em frente de casa, mas que todos podem usufruir.

“Eu cuido porque eu reconheço que somos nós que precisamos da natureza, não ela da gente” – Dona LourdinhaFotos: Pedro Silva/Rillary Martins

Por Pedro Silva e Rillary Martins (repórteres) – Luana Gregório (editora)