LUIZ FILHO e a Fábrica de Sonhos

Um sonho de cada vez. Assim, numa panela branca de alças e bordas pretas, Luiz Filho dispõe os sonhos e logo a maré de óleo quente aumenta, preparando novos sabores. Luiz  aprendeu a fazer sonhos – assim como a maior parte das coisas da vida – observando. Vendo, como ele diz, “o abençoado de um irmão de uma igreja fazendo”. Hoje produz sonhos “de vários sabores, de vários recheios”.

Um homem de 38 anos de idade, esguio, forte e de feição terna. Irmão de dezoito irmãos, desses, cinco executados “em nome do crime”. A decisão de recomeçar impediu que a próxima vida ceifada fosse a sua. Enquanto vira e revira os sonhos para que assem uniformemente, as questões inquiridas pela repórter vão sendo respondidas. Palavra após palavra, o discurso, muitas vezes adornado pela dor e dificuldade, se dá com gentileza; há convicção na fala de Luiz Filho: “Tô bem ciente das coisas que eu quero. […] Quero recomeçar tudo de novo”.

Dos dezoito membros da família, Luiz é o ‘filho bastardo’, desgarrado, aquele que em nada se assemelha às honorárias atribuições dos irmãos. Aquele que é fruto de uma traição. Aquele que é negro e cujos olhos castanho escuro destoam da pele e íris clara de alguns dos ‘seus’. “Eu já nasci de um adultério que minha mãe cometeu. Começaram a me rejeitar desde pequenininho. […] Eu tenho irmãs que são branquinhas, loirinhas, de olhos verdes aí elas olhavam pra mim, eu moreninho, aí falavam: esse não é meu irmão não. Esse negro aí…”. Hilda (65), mãe de Luiz, ajudou o filho no que pôde. Apesar de tudo que os separa, das pequenas rejeições diárias, o afeto permanece. Ainda que à distância “ela é um doce de pessoa”, conta o filho.

Natural de Campina Grande, Luiz Filho, assim como alguns milhares de brasileiros, passou anos morando nas ruas, precisamente oito. O fato se deu após a morte de seu filho Vitor, “o pequeno gigante”,  que culminou no abandono de Luiz por parte da família, e da família por parte de Luiz. “No dia do velório, a esposa pediu divórcio. Eu tive de enterrar o meu filho e, da porta do cemitério, procurar um canto pra ficar”, contou. Invadido pela angústia, a fragilidade ganhou as ruas, o crime, as drogas, o tráfico. Nesses oito anos vivendo em situação de rua, Luiz mendigou, passou por humilhações, fome, se viciou em drogas. Sofreu na alma, no espírito e na carne, como ele mesmo diz. “Minha vida mudou, deu uma reviravolta, de ruim pra pior”.

Desenganado, o andarilho Luiz percorre grande parte do país. Passa por São Paulo, Goiânia, Recife, Alagoas, Bahia, até que chega à Porto Velho (RO): começa aí a jornada de Luiz Filho de volta à Paraíba. Mas, antes de contar a história (ou estória. Há sempre um quê de fantasia em sua fala), o fabricante de sonhos indaga a repórter: “Quer mesmo saber?”.

—  Quero.

— Conheço Porto Velho como a palma da minha mão. Em noite de temporal, sucuri vira peixe: a cobra passava assim na água, oh — e gesticula enquanto conta a história da noite em que escutou “uma voz bem macia no coração”.

Primeiro Luiz é rejeitado por outros mendigos. O seu jeito de falar (polido e formal) causa estranhamento às outras pessoas também em situação de rua. “Eles me falavam que eu era diferente. Falava diferente, se expressava diferente”, contou. Chegaram a imaginar que o rapaz fosse um PM, alguém infiltrado para prender as pessoas que ali se encontravam. Na madrugada desse dia, o temporal se intensificou e os abrigos foram ocupados pelos mesmos homens que achavam Luiz Filho “diferente”. “Só tinha um abrigo. E eles entraram no abrigo e não me deixaram chegar perto”. Restou a Luiz a calçada da igreja e a companhia de três cachorros. “Quando eu vi que a água vinha com tudo, que ilhou, aí eu expulsei os cachorros e fiquei no lugar deles”.

Naquele momento, inúmeras questões atordoaram os pensamentos daquele que só parecia mendigo na veste e na fome. “Por que o senhor não tirou minha vida? Por que esse sofrimento todo? Era melhor que eu tivesse morrido e eu não tenho coragem de tirar a minha vida. Por que o Senhor não tira minha vida?”, relembra os pensamentos. Com a cabeça a mil, o corpo cansado, a chuva nos olhos e uma enxurrada de sentimento, Luiz ouve uma voz que ressoa calma e macia em seu coração dizendo assim: ‘“eu não te mandei pra cá. Eu não te escolhi pra viver assim’, aí eu olhei prum lado, pro outro e falei ‘tô ficando doido. Eu tô delirando.’ Aí quando eu olhei pro céu, aquele céu escuro, aí a voz veio de novo no meu coração, ‘eu não te mandei pra cá. Volta!’”. Luiz ainda conta com ar de surpresa que naquele momento se perguntou se quem falava com ele era “o Senhor mesmo”, acreditou que sim e, ao amanhecer do dia, reuniu as forças do corpo e pôs-se a caminhar: “Se foi o Senhor mesmo que falou comigo, então vou começar a sair de Porto Velho a pé e o Senhor vai me ajudar a chegar até lá”. Assim, em meio a inúmeras dificuldades enfrentadas no caminho, Luiz volta à Paraíba.

Chegando em Campina Grande procura a família —  representada pela figura de sua ex-esposa —  e é rejeitado novamente. “Então o que foi que eu fiz? Voltei pras ruas, só que agora era as ruas de Campina Grande”.

 

A rádio é “pelo Zap”

Devido a dependência química causada pelo uso de crack, o futuro locutor de rádio, auxiliado por ‘Nize’—  uma amiga —  foi resgatado das ruas e levado à Base Missionária Leão de Judá, onde passou três meses em recuperação. Lá, desenvolveu um trabalho com a Web Rádio Visão de Vidas. “A gente faz no celular, na internet que tem de bônus no celular, a gente faz a Rádio Visão de Vidas pelo zap”, afirma com entusiasmo. Falando sobre o trabalho de Ministério Leão de Judá e com o intuito de quebrar preconceitos, a voz de Luiz chegou a diversos estados e informou aos ouvintes: “Gosto muito. Eu gosto muito de comunicação”.

 

Treinador! Treinador!

O futebol sempre foi um elemento presente na vontade de Luiz. O jogo é aliado da vida, é a própria vida, e dessa partida ele é o treinador: “Antes eu era professor de futebol feminino. Tem uma equipe de futebol feminino aí me esperando, me pedindo pra que eu volte e eu quero chegar lá e lutar pelo espaço feminino no futebol”. Luiz é o idealizador do Projeto Fábrica de Sonhos: ‘Vitor, o Pequeno Gigante’, nome em homenagem ao seu filho, que morreu ainda criança, acometido pelo câncer.

O projeto busca dar conta dos sonhos de jovens da cidade de Ingá, localizada no interior da Paraíba, e é mais uma maneira que Luiz encontrou de fazer o bem: “Eu me sinto realizado e me sinto útil”. A Fábrica de Sonhos conta com parte da equipe feminina do Industrial Futebol Clube, conduzida pelo treinador. Ali, produzem também sonhos de chocolate granulados de um colorido repleto de realidade. Acaba aqui a primeira leva de sonhos.

Ou melhor, se inicia.

Por Alessandra Clementino, Maryanne Paulino Mayara Bezerra (repórteres) – Luana Gregório (editora)