Epopeia Araxaense – o Paraíso pode ser uma questão de opinião

Mais um dia se inicia no simplório bairro do Araxá na Zona Norte do município de Campina Grande. O silêncio que embala a madrugada é quebrado pelo estrondoso som metálico dos motores dos ônibus que cortam as ruas estreitas da localidade.

Dona Maria, 81 anos, moradora do bairro há quase quarenta anos, acorda com os primeiros raios de sol. Ou mesmo bem antes disso. Troca de roupa, penteia os cabelos prendendo-os delicadamente em um coque. Logo após encaminha para fora. Inúmeros pontinhos brancos enfeitam a rua. Trata-se de sacos de lixo. É segunda-feira. Dia de coleta. O mau cheiro impregna o ambiente, mas é por pouco tempo.

Dona Maria continua seus passos rumo à padaria. No caminho cumprimenta os vizinhos e, juntos repercutem o assalto à mão armada que houve na noite anterior nas proximades do local. Dois estudantes tiveram os celulares levados pelos bandidos em uma abordagem violenta.

Após os intensos comentários, ela segue em frente. Dois reais de pães, um pedaço de queijo coalho e, um litro de leite completa a compra de Dona Maria que efetua o pagamento reclamando da qualidade dos produtos que não considera tão bons quanto antes.

Na esquina do estabelecimento encontra sua neta que espera o transporte, impacientemente, para ir ao trabalho. O diálogo é iniciado de imediato. Morgana – a referida neta- se revolta com a demora na chegada da lotação. O bairro do Araxá é suprido pelas rotas 300B. 303, 333, 505 e 555. No entanto, as reclamações dos passageiros são frequentes. Atrasos, assaltos, pontos de ônibus a céu aberto e o mau estado de alguns transportes são algumas das críticas mais fortes.

Ao chegar em casa, Dona Maria faz o café e ferve o leite. Enquanto corta o pão, lembra-se das compras que precisa fazer logo mais na mercearia. Realiza sua refeição solitariamente e espera seu neto despertar do sono.

Mateus, 21 anos, é universitário, acorda de supetão surpreendido com o barulho esganiçado do alarme. Depois de se arrumar, pede a benção a sua vó, toma rapidamente um gole de café e parte para mais um dia de aula. Novamente ele decide deixar o telefone celular em casa. Ultimamente os casos de assaltos aumentaram consideravelmente. Esse risco ele prefere evitar.

O Araxá, apesar de sua simplicidade, torna-se privilegiado por ter a Universidade Estadual da Paraíba, O Hospital da FAP e a Escola Técnica Redentorista como vizinhos próximos. Por causa disso, o fluxo de pessoas, principalmente pela manhã, aumenta causando uma superlotação nos ônibus. Mateus não conseguiu embarcar em dois veículos devido ao grande número de pessoas. Teve que esperar o próximo, acarretando mais um dia de atraso na sua aula.

Casa varrida, móveis espanados, louça devidamente lavada. Dona Maria segue sua rotina. Agora é a vez de abastecer a despensa comprando os mantimentos que estão em falta.

Nessa altura, as ruas do Araxá esbanjam vida. Estudantes com seus cadernos a tirar colo. Um trabalhador empurra seu carrinho de mão cheio de entulhos. Uma família segue viagem em cima de uma velha carroça guiada por um surrado pangaré que se esforça em puxar o peso exagerado enquanto recebe contínuas chicotadas de seu dono que esbanja um grosso cigarro feito de fumo de rolo fazendo boró. Uma moça, com seus prováveis quinze anos revela sua barriga gestante que a blusa florida não consegue mais cobrir. Um cachorro sardento surge em disparada no encalço de um gato vira-latas que escapa do ataque ao subir agilmente em um muro de cor amarela com o reboco a sucumbir.

Maria confere os trocados que traz firme em seus dedos enrugados que exalam um agradável cheirinho de amaciante de lavanda. O dinheiro está escasso, a aposentadoria só será sacada na próxima semana. A mercearia, embora simples, comporta os mais diversos suprimentos. Carne, peixe e frango, condimentos de todos os cheiros, texturas e sabores, verduras, frutas e legumes. Também feijão verde, açúcar, farinha e fubá. A idosa seleciona pacientemente seus produtos. A compra final é composta por dois quilos de carne de gado, macaxeiras bem escolhidas, quatro limões e, meio quilo de cebolas. O vendedor recebe o dinheiro e Dona Maria se destina a contar seus causos, perdendo noção do seu precioso tempo.

As sacolas são carregadas cheias de compras, os passos são apressados. Na sua rua o caminhão de lixo recolhe os fétidos sacos que até então apodreciam o ar. Antes mesmo de entrar na sua residência, Dona Neuza, vizinha da frente se aproxima pra conversar. Conta que ainda de madrugada foi até ao posto de saúde localizado no bairro da Palmeira, uma vez que no bairro do Araxá não é disponibilizado atendimento odontológico, para garantir sua ficha no intuito de realizar uma obturação em seu dente que há tempos a vem incomodando. Porém, a viagem foi em vão. A dentista não compareceu alegando outro compromisso. Não restando outra opção do que voltar pra casa na companhia da dor, da revolta e do descaso. As vizinhas repercutem o acontecido e seguem cada uma para sua casa.

O bairro é visto por algumas pessoas como um lugar perigoso. Diga-me então onde se encontra esse oásis de segurança em Campina Grande que iremos providenciar nossa mudança… Uma grande ilusão. Cada um pode fazer do caos o seu paraíso particular. Mas convencer os mototaxistas dessa filosofia barata de boteco é uma missão quase impossível, um roteiro digno de um daqueles filmes hollywoodianos de ação que a gente assiste na Tela Quente. Mateus, por inúmeras vezes, teve o pedido da corrida de moto cancelada já tarde da noite. Os motoqueiros preferem garantir sua segurança.

Dona Maria, nossa coadjuvante, defende sua aconchegante vivenda com unhas e dentes: “Moro aqui há mais de trinta anos. Gosto demais de morar aqui. Eu não acho um bairro perigoso, ninguém nunca buliu em nada. Tem de tudo no bairro, o que não tem, tem nos bairros vizinhos, é tudo muito perto. Trinta e tantos anos que estou aqui, gosto muito dos meus vizinhos, são todos muito bons pra mim”, diz sustentando sua venda diáfana que camufla grande parte da realidade.

O Araxá, nosso protagonista, continua indeciso entre o seu papel do mocinho coitadinho ou do vilão mal interpretado. Paralelamente a essa indecisão, a cena precisa continuar. Salete corta, pinta e alisa cabelos, seus dedos falham com o movimento repetitivo; Gê espera a nova mercadoria, peças de carne que chegam do frigorífico diretamente para o seu açougue; Cícero vende balas sortidas, feijão preto e mulatinho, a simpatia é gratuita e com fartura, mas “fiado” é a única palavra que o tira do sério; Seu Luiz comercializa roupas no seu estabelecimento, enquanto espera os clientes assa e cozinha milho pra garantir um trocado extra. Dois senhores resolvem fazer parada no barzinho em frente à parada de ônibus na avenida principal, a pinga do brejo abre o apetite pra refeição de logo mais.

A epopeia é formada por cada um desses pequenos grandes moradores que por muitas vezes passam despercebidos aos olhos dos demais. Diferentes por completos… Condição financeira, cor, religião e tantas outras características que rotulam e afastam as pessoas. Talvez a única semelhança entre todos seja a vontade de ter uma condição de vida digna. O desejo de viver bem e criar seus filhos e netos em um Araxá que encha os olhos e orgulhe a todos que por aqui passem. Hoje é dia de missa. Dona Maria é uma das primeiras a chegar à igreja. É dia de agradecer.

Por Mateus B. Araújo (repórter) – Iara Alves (editora)